A fazenda Vitória e tio Ubaldo- por Alcides Kruschewsky

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A FAZENDA VITÓRIA e TIO UBALDO
Comumente a chamávamos de “O Barbosa”. Pertenceu ao nosso Tio Ubaldo Kruschewsky Sobrinho, irmão caçula de meu avô Alcides, filho de Gabino Kruschewsky, o desbravador. Ao encontro, como na despedida, os irmãos numa alegria incontida, abraçavam-se e beijavam-se no rosto afetuosamente, seguido da benção irrenunciável do irmão mais velho. Estando no Rio do Braço, era visita obrigatória.
Tio Ubaldo e Tia Victorinha Halla Kruschewsky gostavam da casa cheia de crianças e nos levavam nas férias junto com os sobrinhos dela, aos quais também considerávamos primos, para “a roça”. Tio Ubaldo estava sempre muito bem barbeado, banhado e cheiroso de deliciosa fragrância da loção pós barba. Tomávamos a sua benção sentindo aquele perfume matinal marcante. Com meus primos Néo Bastos Kruschewsky, Silvio Kruschewsky, Vera Halla, ali vivemos momentos inesquecíveis da nossa plena infância.
Eram muitos os empregados e famílias que lá residiam e muitos, ainda hoje, são nossos amigos, como a querida Marcelina Santana, filha de Sêo Maroto, barcaceiro e especialista em cacau. Das famílias residentes na fazenda, algumas eram numerosas.
Respirei fundo, tomei coragem e decidi: hoje eu vou lá. Após uns 40 anos, revi a fazenda. Fui entrando confuso, sem saber ao certo para onde olhar, queria ver tudo, conhecia cada pedacinho daquele lugar que é parte da minha vida.O tamanho das casas dos trabalhadores me impressionou, havia esquecido essa dimensão: várias possuem 3 quartos, sala, cozinha, banheiro e varanda. A fazenda era exuberante e a infraestrutura era fabulosa, quase uma vila. Fui olhando aquele cenário e lembrando o nome de cada amigo, cada família que ali morava. Volta e meia ouvi vozes chamando um “cumpade”, aquele modo de falar e linguajar tão típicos.
A vida da fazenda era muito movimentada, de muito trabalho e Tio Ubaldo era caprichoso, zeloso, trazendo a propriedade cuidada com muito esmero e bom gosto. Passamos bons tempos no “Barbosa” e as longas cavalgadas ainda estão nas lembranças, junto com os bábas de todo fim de tarde, uma das diversões do lugar. Das coisas curiosas do campo de futebol, a descaída do terreno nas proximidades de uma das traves, era a principal. Aí, chutando à meia altura, de fora da área, era certo que a bola ia entrar na gaveta… As cozinheiras que assistiam Tia Vitorinha eram exímias na culinária tradicional regional e algumas, como a saudosa e inesquecível Filó, também atendiam aos meus avós, na nossa fazenda Boa Vista, Rio do Braço, a 2 km dali. Aos dotes culinários rurais destas, somava-se a expertise de Tia Vitorinha em guloseimas que fazia como ninguém, como o seu apreciadíssimo licor de cacau, forte, quase um conhaque, preto coca-cola, translúcido de tão bem filtrado gota a gota, nos funis com algodão prensado. Dona Mariana sua mãe, libanesa, D. Zezé, irmã, sempre presentes, muito simpáticas e cuidadosas conosco, caprichavam doces que tinham preparo longo e eram incomparáveis. Foi assim, lá com elas, que conheci todo o processo para fazer uma banana passa serenada espetacular, depois caramelizada e levada na canela. Valia à pena esperar alguns dias por aquelas delícias. Cipriano, homem da confiança de Tio Ubaldo, era o tropeiro, nosso amigo e companheiro cuidador, do lado de quem cavalgamos muitos quilômetros naquela região. Por vezes saíamos bem cedinho, depois do café no curral, levando a tropa até a Fazenda Boa Fé, também pertencente a Tio Ubaldo, de onde voltávamos carregados de sacos de cacau. A aventura durava um dia inteiro e à chegada estávamos extenuados e famintos, mas realizados.

Maravilha era a mula de Tio Ubaldo. Só o Tio a montava, era sua predileta e ele tinha ciúmes dela. Mula branquinha, boa de sela e de pisada viageira, das melhores da região. Conhecia o dono e era uma das coisas mais lindas de se vê encilhada. Os apetrechos e selaria adornados eram cuidadosamente escolhidos para a montaria. Ficavam bem guardados até o momento de serem usados para “correr as roças”, atividade que não delegava a terceiros e para a qual se aprontava muito cedo. O ritual para montar começava com a indumentária, incluía um lindo par de botas e um garboso chapéu de fazer inveja a qualquer cowboy. Eu ficava encantado assistindo, como se estivesse vivendo cenas de um filme…
… Procurei pelos “espanta boiada” e papa-capins, pela videira de uvas verdes tão doces, pelos lindos jardins de roseirais e anturios, pelo belo e variado pomar; procurei a lagoa rodeada de “pés de jambo” e seus gansos, o gado… os amigos, … ah,os bons amigos; os fogos no São João, os almoços em família com todos lá… os sabores, aromas e essências da relva intensamente verde… Cipriano, Senhorinho, Filó e Maroto – com seus olhos azuis – Vilma, Damião… procurei as vozes das conversas matutas, os sons da pisa do cacau, da sua quebra; procurei pelos olhares das nossas incursões pela cabruca, na mata; pelos dramáticos choros e desabafos de quando a cachaça subia à cabeça de homens solitários; procurei pelo silêncio das noites, vazados pelos pios, coaxares, berros, mugidos, relinchos e zumbidos… e os vi e ouvi. Tudo, tudo ainda está lá com o mesmo vigor e sentidos, como estava tudo perfeito em minha memória, onde permanecem cheios de vida. Frações de uma vida tão intensamente vividos que é impossível que não chamemos a isso de felicidade.
Ubaldo e Vitorinha não tiveram filhos. Ele carregava o pesar factídico da morte de sua mãe, Dadi, aos 24 anos, durante o seu parto e seu pai, Gabino, morreu em sua companhia, em Salvador, vítima de aneurisma abdominal, aos 52 anos de idade. Ubaldo, ainda muito jovem, estudante de agronomia, não se perdoava e, algumas vezes, a comoção o tomava.
Tio Ubaldo ficou viúvo, mudou-se para Salvador, vindo a falecer anos mais tarde, vítima de um acidente, ao escorregar de uma escada batendo com a cabeça no chão. Vinha sendo assistido pelos sobrinhos, filhos do irmão Gabino Filho, que lhe dedicavam especial atenção. De parte do patrimônio ele se desfez ainda em vida e o que restou em sua posse foi herdado pelos sobrinhos mas, não sem antes destinar algumas propriedades, inclusive o Edifício Gabino Kruschewsky, onde residiram, à rua Antônio Lavigne de Lemos, centro – Ilhéus. O prédio era conhecido, naquela época, porque tinha elevador privativo. Este ficou para a instituição à qual o casal mais se dedicou em vida, o Orfanato Dom Bosco do Banco da Vitória. Atualmente o imóvel sedia a organização Human Net Work.
Dele guardo o carinho e querer bem pelos sobrinhos e irmãos, “meu Rimão”, como sempre se chamavam uns aos outros.
Hoje, resgatando essas memórias, embargado, agradeço a ele essa parte, dentre as melhores coisas que a vida me proporcionou.
Minha saudade, meu muito obrigado e um beijo afetuoso do seu sobrinho/neto, Alcidinho.
* No álbum, a sede da fazenda, Tio Ubaldo e Tia Vitorinha no casamento de minha mãe em 1957, no Rio do Braço, e a casa sede(com detalhes do interior) da Fazenda Vitória.
Convido vocês a conhecerem um pouco dessa fazenda magnífica e entrarem comigo nessa casa onde convivi com a felicidade. Ao revê-la percebí que sua arquitetura representa uma fase de transição, quando alguns conceitos mais modernos, como revestimentos e cozinha, além dos sanitários, já aparecem, ainda que mesclados com materiais e traços de construções do início do século XX. Chamo atenção para o modelo do portão da varanda, que acompanha o desenho do guarda corpos e revestimentos dos sanitários e cozinha, ladrilhos hidráulicos em transição, assemelhados a pastilhas, não sei ao certo, mas lindos. A bancada da enorme copa/cozinha com desenho e material mais moderno. Interessantíssimo, também, são os acessos a algumas dependências, como a escada bifurcada que liga a sala de jantar a um quarto externo e a passarela, que antes era coberto e que liga o casarão a uma ala mais moderna, sobre a garagem, onde há 3 quartos e um banheiro. Porém, para entender mesmo a Casa de Ubaldo Kruschewsky, só mesmo visitando-a, pois aqui, por mais me me empenhe, ainda faltará algo muito interessante.

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