Jacqueline Kennedy de corpo e alma

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Com três indicações ao Oscar, incluindo melhor atriz para Natalie Portman, “Jackie” leva para as telas o intenso drama da mais icônica e admirada primeira-dama dos Estados Unidos.

Por Eliane Guerini, de Toronto, Canadá, para a revista Isto É:

O chileno Pablo Larraín nunca teve a pretensão de decifrar nas telas quem foi Jacqueline Kennedy Onassis (1929-1994). “Por ter sido tão reservada, ela provavelmente permanecerá como uma das mais misteriosas entre as figuras públicas femininas do século 20’’, disse a ISTOÉ o diretor de “Jackie”, drama indicado ao Oscar em três categorias: melhor atriz para a comovente interpretação de Natalie Portman, melhor trilha sonora e melhor figurino. Conhecido por ter dirigido filmes como “Neruda” (2016), “O Clube” (2015) e “No” (2012), o cineasta afirma que só quis “abrir uma janela” para a vida de Jackie. Mais precisamente, para os dias trágicos que ela enfrentou após o assassinato do primeiro marido, o então presidente John Fitzgerald Kennedy enquanto eles desfilavam no carro presidencial conversível pelas ruas de Dallas, no Texas, em 1963. “A ideia é resgatar o que ela deve ter enfrentado e sentido, buscando o seu lado mais humano, nem sempre acessível nos registros históricos’’, disse Larraín em Toronto, no Canadá, onde “Jackie” foi uma das atrações da 41ª edição do TIFF, o festival de cinema da cidade.

O roteiro assinado por Noah Oppenheim tenta imaginar como teriam sido os dias em que a primeira dama planejou o funeral do marido e a sua mudança da Casa Branca, com os dois filhos pequenos (Caroline e John Jr.). Enquanto ela tenta fazer o que é preciso, para honrar o legado dos Kennedys, sua mente é invadida por lembranças: tanto da morte brutal do marido, em seus braços, quanto da vida que o casal levava na intimidade.
As cenas de licença poética, como a de Jackie no banheiro (tirando o terninho cor-de-rosa Chanel, sujo de sangue do marido, para tomar banho), são entrelaçadas com sequências baseadas em material histórico. Uma das principais fontes oficiais é a entrevista que Jackie concedeu sete dias depois do assassinato ao jornalista Theodore H. White, vencedor do prêmio Pulitzer. Publicada na revista “Life”, a entrevista dá estrutura ao filme — a ponto de o roteiro incorporar trechos literais.
“Este foi o recorte escolhido para o filme pelo momento certamente ter sido um dos mais difíceis da vida de Jackie. Não dá para imaginar o que deve ter sido testemunhar a morte do marido, assim que o tiro atingiu a cabeça dele”, afirmou Larraín, lembrando que as cinebiografias preocupadas em resumir toda a trajetória do personagem estão obsoletas. “O importante é selecionar uma fração representativa da vida do biografado — de preferência, um momento que ajuda a definir o seu caráter.”

A atriz Natalie Portman convence facilmente como a mulher em pedaços que precisa de muita presença de espírito para continuar de pé e executar sua derradeira tarefa como primeira-dama. Além de imitar o jeito de falar de Jackie (por vezes, parecido com o de Marilyn Monroe), a atriz reproduz com fidelidade todo o gestual da mulher que foi ícone de estilo. Pelo menos no que diz respeito à imagem, imaculada, que Jackie gostava de projetar. “Dá para perceber que Jackie se preocupava bastante com isso, tentando moldar a própria imagem para corresponder às expectativas. Por mais que tenha conseguido por um tempo, houve momentos em que tudo fugiu ao seu controle, como o que retratamos no filme”, contou Larraín. E é justamente isso que mais interessa ao diretor. “Ver Jackie tentar trabalhar a imagem diante do caos.’’

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