O lenço

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O lenço – Por Chico Andrade

Pode haver algo mais forte que a vontade?Pode haver maior triunfo carismático que um sincero sorriso de um ser humano?Nos intriga saber se algo material pode possuir simbologia mais poderosa que um gesto humano,e,no decorrer de nossa existência,temos o fantástico privilegio de testemunhar intensos e sinceros espetáculos de amizade,amor e paz.Essa gama de ações e sentimentos humanos alicerça de maneira inequívoca grandes transformações sociais,e promove um sem numero de revoluções.

O lenço personifica tudo isso.Tentando capitanear minha vida nas areias de uma bela praia,pesquei,nas ondas do meu coração,a lembrança de que,na maioria das vezes,homens e mulheres são o que vestem,e seus acessórios dão o tom de suas inquietações,de suas pessoais e admiráveis revoluções.O lenço de Yasser Arafat não era um simples lenço,e agora me ponho a refletir sobre o lenço da dona Maria,que trabalhava em nossas casas quando éramos crianças,e que também não era um lenço qualquer.O mapa palestino,estampado ali,no lenço de Arafat,era o reflexo da luta infinita do velho líder árabe,e explicitava sua personalidade contraditória,uma mescla de mensageiro da paz com grande senhor da guerra.Hoje,indo da Caxemira a palestina,assustando-me com o crescente horror do fundamentalismo no mundo,me sobra ainda equilíbrio para ponderar a ausência de igualdade,liberdade e fraternidade entre os povos.Como podem judeus e muçulmanos,descendentes de um mesmo patriarca,viverem em um inferno sem fim?

A revolução francesa,evento histórico marcado pelo uso de adereços para simbolizar uma revolução,também defendia tais ideais.Termino por aliançar algo tríplice:O vermelho,pioneiro e revolucionário lenço frances,o lenço de Arafat e ainda o lenço humilde,porem lindo,de dona Maria.Eram lenços,simples adereços,que de nada valeriam se não explicitassem a vontade de revolucionar os corações até mesmo de quem praticou a guerra tentando obter a paz.Que os lenços que nos forem apresentados durante a vida sirvam para enxugar muitas lagrimas de felicidade,e poucas que reflitam sofrimento nosso ou alheio.Entre um lenço e outro,para garantir a paz,é preciso buscar incessantemente a ternura para com o próximo.

 

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